Harold Cohen – Aaron

Harold Cohen - Aaron

Harold Cohen é um artista que abandonou a pintura para se dedicar à criação de um sistema computacional de geração de imagens, que batizou de Aaron. Sabemos que Cohen é o criador de Aaron, mas e quanto às criações de Aaron – são autoria de quem, e o que são?

Meu envolvimento é muito maior quando estou escrevendo programas de computador do que era quando eu estava pintando. (Cohen In Roth, 1978:109)

Harold Cohen

Cohen começou o seu percurso acadêmico e artístico nas belas artes, atuando principalmente como pintor. No final da década de 60 teve o seu primeiro contato com a computação, posteriormente aprofundando-se na área da inteligência artificial no início dos anos 70, durante o período em que esteve como professor convidado na Stanford University. Em 1973 Cohen iniciou o desenvolvimento de Aaron, um sistema computacional para produção de imagens, projeto que continua em desenvolvimento até hoje.

Além de expor as imagens produzidas por Aaron em museus e galerias, Cohen tem uma significativa produção acadêmica, documentando o projeto e as reflexões que decorrem das suas pesquisas. Seu discurso é muito rico, levantando uma série de reflexões sobre estilo e autoria, significado e caos, no contexto da arte em meios digitais. Através de Aaron, problematiza a posição do artista como uma “máquina de gosto”, meramente reproduzindo expectativas do público e da crítica.

Assim, o processo de invenção de Aaron seria também uma busca pelo que há de característico ou especial no próprio ato criativo, tanto do artista como indivíduo, como do ser humano de uma maneira geral.

Aaron, 1992. Fonte: http://www.stanford.edu

Aaron
Aaron é um sistema computacional de geração de imagens originais, dotadas de determinadas características específicas (ou “estilo”). Suas criações geralmente consistem de figuras humanas em ambientes fechados posicionadas ao lado de vasos de plantas, embora existam variações ao longo dos diversos anos de desenvolvimento do sistema.

Harold Cohen criou Aaron com o objetivo de identificar que características fazem com que um conjunto de traços possa ser considerado “uma imagem”, bem como de refletir criticamente a respeito da função do artista.

O interesse de Cohen ao desenvolver este sistema computacional de geração de imagens não está na máquina em si, mas sim no que ela poderia revelar a respeito da mente humana como entidade criativa.

“Máquina de Gosto”
No processo de criar uma máquina que possuiria as suas próprias capacidades criativas e expressivas, Cohen também faz uma crítica ao papel do artista dentro da sociedade, visto como uma “máquina de gosto”, simplesmente transformando matéria-prima (por exemplo, tinta) em um produto (um quadro) capaz de atender às necessidades do consumidor (as expectativas do público das galerias de arte)

Da Tinta ao Código
Cohen observou uma forte analogia entre o funcionamento da mente humana e os processos da máquina, princípio sobre o qual o artista se dispôs a transpor os seus próprios métodos criativos para o meio numérico. Eventualmente, este processo se tornou mais gratificante para o artista do que a própria pintura.

Meu senso de envolvimento é muito maior quando estou escrevendo programas de computador do que era quando eu estava pintando. (Cohen In Roth, 1978:109)

Aaron Não é “Criativo
Vimos que a intenção de Cohen não é de criar um “artista virtual” verdadeiramente inteligente ou criativo. Sua postura é principalmente experimental e reflexiva.

Assim como Ada Lovelace descreve a Máquina Analítica de Alan Turing como incapaz de “originar” qualquer coisa, apenas realizando operações nela programadas (Turing, 1950), tudo que Aaron é capaz de fazer precisou ser antes programado por Cohen.

De forma a evitar a complicação de lidar com um conceito tão polêmico e ambíguo como é o da “criatividade”, Cohen desenvolve a sua argumentação a partir do que ele denomina como “Comportamento X”. Trata-se de algo semelhante ao que se chamaria de um “comportamento criativo”, mas definido de maneira rigorosa a partir de quatro elementos fundamentais: emergência, consciência, motivação e conhecimento (Cohen, 1999).

A partir destes elementos fundamentais, Cohen conclui que este “Comportamento X” não poderia ocorrer em um sistema computacional, principalmente por conta da impossibilidade de uma máquina possuir intenção, ou motivação.

AARON é uma entidade, não uma pessoa; e seu estilo artístico inconfundível é produto da sua entidadiedade, se posso cunhar este termo, não de sua personalidade. (Cohen, 1999:9)

Standing Figure with Decorated Background, 1993. Obs: estas imagens são de uma série na qual Aaron criava os desenhos e Cohen os pintava à mão posteriormente.

Cohen “x” Arte
Convém notar que Cohen raramente usa a palavra “arte” para denominar o comportamento e as produções de Aaron. No lugar de “arte” o autor prefere falar de “produção de imagens”, com isso evitando determinadas conotações sociais, culturais e políticas, que inevitavelmente surgem ao se falar de arte como instituição. Apesar disso, os trabalhos de Cohen são expostos em galerias e museus de arte – isto é, de uma forma ou de outra participam do chamado “circuito artístico.

O próprio artista rejeita o rótulo de “Arte Computacional” para o seu trabalho. Incomoda a ênfase dada na área aos aspectos técnicos, enquanto que a discussão a respeito dos significados associados ao emprego da tecnologia tende a ficar de lado.

Que a arte computacional seja praticamente desprovida de crítica talvez seja a razão mais importante pela qual eu não quero ter nada a ver com ela. Exibições de arte computacional são como catálogos de compras por correio: tudo maravilhoso, tudo é novidade (…), e nada é apresentado ou discutido, em circunstância alguma, em termos da sua significância.  (Cohen, 1986:191-192)

Vale frisar que crítica de Cohen – de que a Arte Computacional ainda é muito mais “Computacional” do que “Arte” – continua válida até hoje (o mesmo vale para a Arte Tecnológica de uma maneira geral).

Obs: mais sobre Harold Cohen e Aaron neste post anterior.

Referências:
Roth, Moira. Harold cohen on art and the machine. Art in America, 66:106-110, Setembro/Outubro 1978.
Turing, Alan M. Computing machinery and intelligence. Mind, 59(236):433-460, Outubro 1950.
Cohen, Harold. Colouring without seeing: a problem in machine creativity. página 14, 1999. Texto online.
Cohen, Harold. Off the shelf. página 4, 1986. Texto online. Publicado originalmente na revista The Visual Computer (1986), Vol. 2, p. 191-194.

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