Pierre Lévy

Trechos selecionados comentados de O Que é o Virtual?, de Pierre Lévy (1999).

VIRTUALIZAÇÃO

[A] virtualização não e boa, nem má, nem neutra. (pg 11)

[S]eguindo estritamente o vocabulário filosófico, não se deveria falar de imagens virtuais para qualificar as imagens digitais, mas de imagens possiveis sendo exibidas. (pg 40)

O virtual não se opõe ao real e sim ao atual. O possível se opõe ao real.

O virtual só eclode com a entrada da subjetividade humana no circuito (pg 40)

A atualização (o processo inverso da virtualização), por sua vez, só ocorre quando há interpretação por parte do receptor.

HIPERCORPO

Hoje nos associamos virtualmente num só corpo com os que participam das mesmas redes técnicas e médicas. Cada corpo individual torna-se parte intergante de um imenso hipercorpo híbrido e mundializado. (pg 31)

Meu corpo pessoal é a atualização temporária de um enorme hipercorpo híbrido, social e tecnobiológico. (pg 33)

Não há mais um texto, discernível e individualizável, mas apenas texto, assim como não ha uma água, e uma areia, mas apenas água e areia. (…) Assim está mais próximo do próprio movimento do pensamento, ou da imagem que hoje temos deste. (pg 48)

Uma tecnologia intelectual, quase sempre, exterioriza, objetiviza, virtualiza uma função cognitiva, uma atividade mental (…) (pg 38)

TRABALHO VIRTUAL

Uma coisa é certa, a hora uniforme do relógio não é mais a unidade pertinente para a medida de trabalho. (pg 61)

Hoje o trabalhador oferece a sua competência, ambígua, difícil de ser mensurada e que não se consome com o uso (pelo contrário, se fortalece).

Na verdade, vivemos já mais ou menos sob esse regime [da economia da abundância], mas continuamos a nos servir dos instrumentos doravante inadequados da economia de raridade (Goldfinger, 1994) (pg 56, grifos meus)

AS TRÊS VIRTUALIZAÇÕES QUE FIZERAM O HUMANO

As 3 virtualizações que fizeram o humano são (1) a Linguagem (virtualização do presente), (2) a Técnica (virtualização da ação) e (3) o Contrato (virtualização da violência).

Sobre a Técnica (virtualização da ação):

De onde vem as ferramentas? Primeiro, uma função física ou mental dos seres vivos (bate, pegar, caminhar, voar, calcular) é identificada. Depois, essas funções são separadas de um agregado particular de ossos, carne e neurônios. Assim elas são separadas, ao mesmo tempo, de uma experiência interior, subjetiva. A função abstrata é materializada sob outras formas que não o gesto habitual. (pg 74, grifos meus)

Graças a essa materialização, o privado torna-se público, partilhado. O que era indissociável de uma imediatidade subjetiva, de uma interioridade orgânica, agora passou por inteiro ou em parte ao exterior, para um objeto. (pg 74)

E depois esta mesma técnica será internalizada de novo, geralmente em outra(s) pessoa(s), no momento do uso.

ARTE COMO (AUTO-)CONHECIMENTO (E DESALIENAÇÃO)(?)

A arte denuncia a virtualização via virtualização (?).

A virtualização, em geral, é uma guerra contra a fragilidade, a dor, o desgaste.  (pg 79)

A arte pode tornar perceptível, acessível aos sentidos e às emoções o salto vertiginoso para dentro da virtualização que efetuamos tão frequentemente às cegas e contra nossa vontade. (pg 148)

HIPERARTISTA?

Os artistas supostamente exprimiram a si próprios apenas durante um período muito curto da história da arte. Muitas pesquisas estéticas contemporâneas retornam a práticas arcaicas que consistem em dar consistência, em ceder uma voz à criatividade cósmica. Assim, para o artista, trata-se menos de interpretar o mundo de que permitir que processos biológicos, atuais ou hipotéticos, que estruturas matemáticas, que dinâmicas sociais ou coletivas tomem diretamente a palavra. A arte não consiste mais, aqui, em compor uma “mensagem”, mas em maquinar um dispositivo que permita à parte ainda muda da criatividade cósmica fazer ouvir seu próprio canto. (pg 148-149, grifos meus)

Mas faz sentido falar em uma coisa “tomar diretamente” qualquer outra quando há linguagem envolvida?

E PRA FINALIZAR

A arte, e portanto a filosofia, a política e a tecnologia que ela inspira e atravessa, deve opor uma virtualização requalificante, inclusiva e hospitaleira à virtualização pervertida que exclui e desqualifica. (pg 150, grifos meus)

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