FILE 10 NURBS PROTO 4KT (!)

FILE 2009 thumb

*Attention: English version after the jump, at the bottom*

A décima edição do FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) aconteceu no Sesi-SP de 28 de julho a 20 de setembro e contou com uma enorme quantidade de trabalhos em diversas categorias.

Fiquei satisfeito de ver a disciplina dos Estudos do Software (Software Studies), representada por Lev Manovich, na área da Analítica Cultural (no catálogo do evento há um texto dele sobre as NURBS), e pelo brasileiro Cícero Silva, (que tratou principalmente da tecnologia em torno do cinema 4KT).

Segue um trecho do texto de Cícero que está no catálogo do festival:

O espírito de um espectador, cuja atenção fora “domesticada” por um tipo de narratividade do cinema, reencontra agora um universo de aparatos tecnológicos de maravilhamento que o coloca diante de uma nova dimensão de simultaneidades e atenções flutuantes. (…) Um outro mundo de imagens nos espera. Ou, pelo contrário: somos outros e a esta imagem foi construída justamente para dar conta da nossa atual complexidade. A película não nos representa mais.

A primeira viagem do homem à lua faz agora quarenta anos, aconteceu em julho de 1969. Nada ainda se compara a esta façanha sonhada por escritores e pintores. A ficção científica foi uma fonte de inspiração para o cinema, com imagens desérticas, espaçonaves prateadas, seres híbridos. Mas um aspecto, um aspecto bem especial foi observado por Dave Scott, o sétimo homem a pisar na lua: “dentre todos os escritores de ficção científica, nenhum deles ousou sonhar que o mundo estaria vendo a chegada do homem à lua pela televisão”.

Clique no link abaixo para ler meus comentários sobre alguns dos trabalhos e sobre o festival.
.

*English version at the bottom*

ALGUMAS OBRAS
Os trabalhos que mais me interessaram foram alguns dos mais simples, tanto na implementação quanto na lógica de interação com o público.

Skinstrument (Daan Brinkmann, HOL) consistia em dois hemisférios que, quando tocados simultaneamente, produziam um som cuja frequência (ou nota) variava de acordo com a extensão da área de contato entre o corpo e o aparelho. Thermotaxis (yonakani, JAP) colocou à disposição do público “protetores de ouvido” felpudos que esquentavam de acordo com a proximidade do usuário a determinadas “zonas quentes” no espaço da exposição. O que torna estes trabalhos especialmente interessantes são os tipos de relações e comportamentos que emergem quando mais de uma pessoa interagia com as obras simultaneamente.

No caso do Skinstrument, pessoas diferentes podiam tocar cada um dos hemisférios – a partir daí, era o toque entre as pessoas que gerava a resposta sonora (vídeo). Em Thermotaxis, as pessoas vestindo os “protetores” acabavam apresentando um comportamento bastante interessante pois, como descreve o texto no catálogo, “eles lentamente se agrupam com pessoas que tem uma preferência térmica similar”.

Considero significativo o fato de que as obras que geram as respostas mais naturais e “humanas” geralmente são as menos complexas.

A parceria entre os brasileiros Fabiano Onça e o pessoal do colmeia também tem gerado trabalhos interessantes, e que exploram essa interação entre os visitantes da exposição. Na edição passada do festival era deles o ótimo jogo Tantalus Quest, no qual os participantes precisavam se posicionar de acordo com formas apresentadas na tela (uma webcam no teto capturava a posição das pessoas).

Para esta edição de 2009 eles criaram um jogo estilo “lander”, no qual o objetivo é pousar uma nave no solo de um planeta, só que controlado por som (ou qualquer outro estímulo capturado pelos microfones, como um sopro, que acabou sendo a opção da maioria dos visitantes). A colaboração entre os visitantes era importante, pois haviam 2 microfones, cada um controlando um dos “propulsores” da nave.

Também gostei de ver trabalhos que exploram o diálogo entre os mundos digital e “físico”. É o caso de Samplingplong (Jörg Niehage, ALE), no qual o público usa um mouse para mover um ponteiro e interagir com uma interface física – passar o mouse sobre um saco plástico fazia ele se encher de ar, por exemplo. Já Moving Mario (Keith Lam , CHI) teoricamente permitiria aos visitantes comandar o clássico personagem da Nintendo em uma versão física do jogo, com roldanas e alavancas realizando as ações e interações (infelizmente a instalação estava constantemente em manutenção).

Outros trabalhos que chamaram a minha atenção:

  • os instrumentos “alienígenas” baseados em voz do Vocal Trio (Eunjoo Shin, KOR);
  • a narrativa interativa em Don’t Give Up (Graziele Lautenschlaeger, BRA);
  • a hipnótica, angustiante e esteticamente interessane Once Upon a Time (Hakeem B., FRA);
  • a beleza de Sensible (Emiliano Causa e outros, ARG), que utiliza um sistema de captura similar ao de Silent Construction (Jaime Oliver – esta não estava no FILE, mas falo sobre ela neste post);
  • as populares “bolinhas” interativas do Complexidade Organizada (Luis Felipe Carli, BRA);

Em Protomembrana (Marcel.lí Antúnez Roca), o artista catalão fez uma apresentação interessante de performance interativa, embora bem mais longa do que o público estava esperando. Sua presença no FILE também incluia uma ótima instalação – uma das maiores do festival. Pela reação das pessoas, observei que o senso de humor que permeia o seu trabalho foge um pouco do que o público brasileiro do evento considera “acessível”.

SOBRE O FILE
A proposta do FILE é de apresentar novidades e promover reflexões na área das linguagens eletrônicas (isso inclui, é claro, arte e tecnologia). É curioso observar como se torna cada vez mais difícil para a organização do festival apresentar algo realmente “novo” para o público. Isso não é uma crítica  e sim uma verificação do dinamismo cada vez maior no acesso à informação (questões sociais à parte). Se por um lado perde-se o “impacto” da novidade, por outro ganha-se no amadurecimento da apreciação e discussão das linguagens eletrônicas.

Apesar disso, muita coisa ainda soa mais como demonstração técnica, exibindo o potencial da linguagem eletrônica, do que de fato expressão artística. Sinto falta de um discurso mais claro e coeso, até porque, ao menos em parte, o festival tem um caráter introdutório, voltado ao público em geral. Essa confusão fica evidenciada no próprio nome da exposição – FILE 10 NURBS PROTO 4KT -, que assusta até mesmo o mais antenado dos visitantes.

O próprio ambiente da exposição traz algumas complicações à acessabilidade do público em geral, como o caos gerado pela união em um único ambiente de uma variedade tão grande de obras, o que em alguns casos prejudicava a proposta e a própria interação do público com alguns trabalhos.

Foi o caso dos trabalhos que se baseavam em interações sonoras, como Authority (Ricardo Nascimento, AUT), por exemplo. Neste trabalho, a imagem projetada de um guarda diminuia conforme o visitante “enfrentava” ele, falando e gritando em um microfone. O guarda parecia estar sempre encolhido por conta do barulho da exposição.

Em Dualogue (Naomi Kaly, EUA), uma instalação extremamente sutil, na qual o deslizamento de uma peça por um fio gera diferentes narrativas sonoras de acordo com a direção e velocidade da interação, muitas vezes o som estava praticamente inaudível.

OS BUGS
Como geralmente acontece em exposições de arte e tecnológica, os bugs e falhas técnicas estavam bastante presentes, como foi o caso do Moving Mario, citado anteriormente (isso não é uma crítica – trata-se de uma característica atual deste meio). Já outros trabalhos estavam constantemente em manutenção, como a instalação Hot and Cold Whisperer (Ebru Kurbak e Jona Hoier, AUT), ou mesmo ausentes, como a Cave (que acabou sendo razoavelmente bem substituída por um trabalho de realidade virtual).

Além dos bugs técnicos, alguns outros problemas prejudicaram determinadas obras (de novo: isso não se trata necessariamente de uma falha do FILE ou dos artistas, mas de questões inerentes à arte tecnológica).

A ótima C.15:33 (Phillip Stearns, EUA), por exemplo, não podia ser tocada pelo público, limitando o impacto da proposta original da obra. Também faltou uma melhor orientação em Aural (Artemis Moroni e outros, BRA), que parecia bastante interessante.

Os computadores contendo os trabalhos nas categorias Game e Mídia Art, nos quais estavam o meu trabalho, Nibballs (leia mais sobre neste post), e o dos meus colegas da USP, Andrei Tomaz e Claudia Sandoval, também apresentavam alguns problemas técnicos. Além disso havia a limitação de várias obras compartilharem um mesmo computador – melhor seria se houvesse um servidor central, assim evitando a situação comum de formarem-se filas nos computadores mais populares, enquanto outros ao lado permaneciam vazios.

CONCLUINDO
Enfim, foi um ótimo festival, com trabalhos muito interessantes. As críticas eu coloco (espero) de maneira construtiva, com o intuito de promover discussões sobre uma área que ainda é muito nova.

Infelizmente acabei não conseguindo ver grande parte da exposição, como os trabalhos na categoria Hipersônica, o tão falado cinema 4KT, os filmes Machinema e muitos dos games e mídia arte.

Obs: evitei links para o site do festival porque, pelo menos quando escrevi este post, aparentemente eles poderiam danificar o meu computador (segundo o Firefox e o Chrome).

*********

The following is a summarized version of this post in English (please write me if you find any mistakes in the text!)

The tenth edition of FILE (Electronic Languages International Festival) happened at Sesi-SP (São Paulo, Brasil), from July 28th to September 20th, with a great number of works in several categories.

I was glad to see the discipline of Software Studies represented by Lev Manovich and Cícero Silva.

Some brief comments on my favorite works:

  • I was most interested in the simpler, more visceral projects, like Skinstrument (Daan Brinkmann, HOL) and Thermotaxis (yonakani, JAP).  What makes these works specially interesting to me are the behaviours and relations that emerge from the interaction of the public with the installation and between themselves.
  • The partnership between Fabiano Onça and colmeia also leads to great works that explore the relationship between visitors, like Tantalus Quest (that was on the previous edition of the festival) and the “lander”-like game in FILE 2009.
  • Some installations explored the parallels between the “real” and virtual worlds, like Samplingplong (Jörg Niehage, ALE) and Moving Mario (Keith Lam , CHI).

Other works I also found interesting:

  • the “alien” instruments of Vocal Trio (Eunjoo Shin, KOR)
  • the interactive narrative Don’t Give Up (Graziele Lautenschlaeger, BRA);
  • the hipnotic, disturbing and aesthetically interesting Once Upon a Time (Hakeem B., FRA);
  • the beauty of Sensible (Emiliano Causa and others, ARG), wich uses a similar capturing system as Silent Construction (Jaime Oliver), about wich I wrote on this post);
  • the interactive colored circles in Complexidade Organizada (Luis Felipe Carli, BRA), or “Organized Complexity”;

ABOUT FILE
One of the main objectives of FILE, besides promoting discussions around electronic languages, is to showcase innovative works in the field. For the last couple of years this task has been increasingly harder, since information has never been so available, and in such a dynamic way, as it is today. In one hand, this means the festival looses the impact of the “new”, on the other, I believe this indicates that there is a more mature and rich conversation going on.

Clique no link ao final deste post para ler meus comentários sobre alguns dos trabalhos, bem como uma análise sobre o festival.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: